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CENTRO ESPÍRITA DE ABADIÂNIA ATRAI TURISTAS E MUDA A ECONOMIA LOCAL (Brasil)

Posted by Gilmour Poincaree on November 24, 2008

Publicação: 23/11/2008 12:20

por Vicente Nunes – Correio Braziliense

Abadiânia — Diz o ditado que a fé move montanhas. Em Abadiânia, Abadiorque ou Abadingland — como JOÃO DE DEUS - CENTRO DOM INÁCIOé chamado o município goiano, de 12,8 mil habitantes —, a fé move euros e dólares. A cada semana, pelo menos 1,2 mil estrangeiros desembarcam na cidade em direção à Casa de Dom Inácio, um centro espírita comandado por João de Deus, cuja fama de curar todos os tipos de doença se espalhou pelo mundo. Em média, os visitantes, muitos desenganados pela medicina convencional e dispostos a pagar qualquer preço pela vida, permanecem na cidade de duas a três semanas, tempo exigido para o tratamento espiritual. Nesse período, gastam entre US$ 4 mil e US$ 5 mil com hospedagem, alimentação e outras despesas do dia-a-dia. Dinheiro que fez surgir um pólo comercial bastante ativo.

“Duvido que haja algum ponto mais promissor nas redondezas”, diz Hamilton Pereira, que se divide entre o cargo de secretário de Finanças de Abadiânia e administrador-geral da Casa de Dom Inácio. “Com tantos turistas na cidade, brasileiros e estrangeiros, houve uma mudança profunda na estrutura econômica do município. Empresas que operavam de forma irregular corrigiram sua atuação. Pessoas que estavam trabalhando na informalidade passaram a ter carteira assinada. Terrenos e casas que não pagavam impostos foram registradas”, afirma. O resultado disso, ressalta, foi um aumento expressivo na arrecadação de tributos. De 2004 para cá, os impostos municipais quase triplicaram, passando de R$ 559,8 mil ao ano para R$ 1,4 milhão (estimativa para 2008). “Posso garantir que a estrutura que gira hoje em torno da Casa de Dom Inácio responde por mais de 30% das receitas tributárias”, frisa.

A indústria do turismo religioso de Abadiânia é composta por 42 hotéis e pousadas e pelo menos 20 lanchonetes e restaurantes. Só a empresária Elizabeth Camargo, 48 anos, que chegou à cidade há 15 anos “com um tumor no cérebro e condenada a um mês de vida”, é dona de três hospedarias, com 123 quartos e 380 leitos. “Atendo turistas de todas as partes do Brasil e de 28 países”, conta. Para manter essa estrutura funcionando, dispõem de 34 empregados. “Temos reservas garantidas para boa parte de 2009. Chegamos a receber grupos de mais de 30 pessoas, como o da Romênia, que chegou nesta semana”, diz. Na média, sua clientela gasta R$ 1,3 mil por duas semanas com hospedagem, incluindo o café da manhã e o almoço. “Funcionamos como postos de saúde. Os hotéis e pousadas servem como pontos de tratamento”, enfatiza. “Até a alimentação que servimos é controlada pela Casa de Dom Inácio”, emenda. Está proibido o consumo de carne de porco, de pimenta e de álcool.

O grosso dos hotéis e pousadas está distribuído pelo Bairro Lindo Horizonte — ou Pretty Horizon para os estrangeiros, que circulam por ele vestidos de branco, como manda João de Deus. Na verdade, o bairro é um pedaço isolado de Abadiânia, separado do restante da cidade pela BR-060, que liga Brasília a Goiânia. O ponto mais movimentado é a Avenida Francisca Teixeira Damas, que, além de hotéis e restaurantes, abriga lojas de roupas, jóias, artesanatos e de produtos de beleza, além de agências de viagem, casas de câmbio, escolas de línguas e, claro, salões de beleza com tratamentos terapêuticos com cristais. “Abri a minha agência de viagens, a To Lead, há dois anos e não tenho do que reclamar”, afirma Thiago Garcia, 29.

Com dois empregados, está há meses a procura de mais um funcionário. O futuro ocupante precisa, no mínimo, falar inglês e espanhol fluentemente. “Com tantos estrangeiros como clientes, não posso me dar ao luxo de empregar qualquer pessoa”, destaca, lembrando que os atuais funcionários estudam, por conta da agência, alemão e francês.

Quem está tirando proveito dessa deficiência é o universitário Daniel Prates, 29. Estudante de letras, montou uma escola na qual ensina português para os estrangeiros e inglês para os brasileiros que querem tirar uma casquinha da lucrativa indústria aglomerada em torno da Casa de Dom Inácio. “Eu mesmo não estudei inglês. Aprendi tudo o que sei com os turistas que vêm para cá. Hoje, falo fluentemente”, conta.

Fiéis inflam preços dos imóveis

Apesar de pregar a simplicidade e o desapego a bens materiais, a Casa de Dom Inácio há muito tempo deixou de ser um lugar dominado por pobres romeiros, que viajavam de ônibus sem nenhum conforto por dias e dias. Parcela importante dos fiéis que hoje freqüentam o centro espírita comandado por João de Deus é de estrangeiros abastados, vários deles fincando residência no pequeno município goiano. Esse desejo de viver “no paraíso”, como define Dina Williams, que, há dois anos, deixou a cidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, fez com que os preços dos imóveis no bairro Lindo Horizonte, ou Pretty Horizon, disparassem. Um terreno de 360 metros quadrados não sai por menos de R$ 60 mil contra R$ 15 mil do lado mais brasileiro da cidade.

A nova-iorquina Denise Cooper, 49 anos, optou, por enquanto, pelo aluguel. A residência fixa em Abadiânia depende de um visto de permanência, que ela ainda não conseguiu, mesmo trabalhando como enfermeira na Casa de Dom Inácio. O grande número de pedidos de vistos tendo como destino a cidade goiana despertou, por sinal, a atenção dos órgãos de segurança de vários países, como a CIA, a Central de Inteligência dos EUA, e da Polícia Federal do Brasil. Agentes têm ido constantemente ao município em busca de explicação para tanto interesse por um lugar que “nem aparece no mapa”, conforme frisa um policial.

A guia turística Tânia Cates, 49, que mora há mais de 20 nos Estados Unidos, discorda do “desconhecimento” de Abadiânia. “É cada vez maior o número de pessoas fora do Brasil que acreditam no poder de cura de João de Deus”, diz. Ela conta que faz entre três e quatro viagens por ano para a cidade, sempre com grupos superiores a 20 pessoas. “Desta vez, estou acompanhando um grupo de Idaho, dos EUA”, acrescenta. Faz parte da comitiva Virgínia Rebata, 54, ex-vice-presidente mundial da rede de Hotéis Marriott. Ela veio se tratar de uma elefantíase nas pernas. “Voltarei para casa curada”, acredita.

A riqueza trazida pelos turistas não anima o motoboy Virgílio Francisco do Nascimento Neto, 25. “A prefeitura aumentou a arrecadação de impostos, mas os serviços públicos continuam terríveis”, afirma. Que o diga a agricultora Divina Gonçalves da Cruz, 41, cuja a avó Amara, de 70 anos, foi obrigada a se tratar de uma diarréia no hospital público de Anápolis porque as unidades de saúde de Abadiânia sequer tinham soro para hidratar a senhora. Além disso, as escolas públicas estão dominadas pela violência. (VN)

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PUBLISHED BY ‘CORREIO BRAZILIENSE’ (Brasil)

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